O problema dos fãs do Eminem (escrito por um fã do Eminem)
Quanto maior a fanbase, mais tóxica; mas tem coisa que dá pra evitar
Um dos maiores desafios de ser um criador para uma fanbase grande, criando arte que provoca qualquer tipo de emoção, é você ter a quase certeza de que praticamente ninguém vai entender de verdade o que você tá tentando dizer.
Marshall Bruce Mathers III, também conhecido como Eminem (ou Slim Shady, ou B-Rabbit, ou o mais recente "Mr. Faz Essa Barba Por Favor"), dispensa apresentações. A essa altura, se você não sabe sobre o que ele fez de bom e de ruim como rapper e como pessoa, ou você é jovem demais pra esse texto ou tá na hora de consertar o roteador do wi-fi.
Eu gostaria de tentar não ser um passa-pano nesse texto; ao contrário da maioria dos fãs do Eminem, eu acredito que ele merece e muito o hate que ele recebe por coisas que ele disse e ainda diz. E é aqui que vamos começar.
Quando eu tinha, sei lá, 14, 17 anos, era (quase) aceitável que eu ficasse perdendo meu tempo debatendo com aqueles que ousam desferir palavras de ódio contra meu salvador e etc. Tecendo os maiores argumentos e me desdobrando pra justificar, por exemplo, aquele verso completamente desnecessário dele sobre socar a cara da Lana del Rey. Isso aí é comportamento de fanboy purinho, e a gente tende a se agarrar com mais força ao que a gente gosta quando é adolescente, então a ideia de que #Ele poderia estar, pasmem, errado era alien demais pra aceitar.
Dito isso, passado um certo ponto, estamos na vida adulta e já é esperado que a gente consiga segurar o tchan um pouquinho melhor. Não que você precise parar de ser emocionado com as coisas e virar um niilista desses que odeia tudo - aí é só eu de domingo à noite mesmo - mas é meio patético continuar se fazendo de cego pra problemas claros porque você faz questão de defender um caba que nem sabe quem você é.
O Eminem já tá na casa dos 50. Tirando a misoginia que infelizmente ele demora 5 vezes mais pra perder, muito do "personagem" dele já caiu por terra e ele cansou de dizer em entrevistas que se arrepende de muitas coisas ditas em músicas. Muito do que ele escrevia e era "controverso" era resultado dos seus anos de consumo desenfreado de drogas, problemas de controle de raiva e uma sensação de que era sempre ele contra o mundo.
Vou falar mais uma vez pra ver se fica claro: muitas vezes, vagabundo tá se matando pra defender o Eminem por ter dito X, Y e Z quando no fim até ele mesmo se arrepende de ter dito. E sim, muito do auge e sucesso da carreira dele se deve à controvérsia, mas esse tipo de sucesso sempre acaba te pegando na contramão; e é por isso que tanta gente insiste em dizer que ele não é mais tão bom quanto antes. Porque eles se apegaram ao sucesso do Slim Shady LP/Marshall Mathers LP, e aí hoje em dia querem que um véio desse. Cheio de dor na coluna. Fique cantando sobre cortar a garganta da mãe como se ele tivesse 20 e usando Valium de novo.
Pra mim, já é prova o suficiente ele ter feito músicas pedindo desculpas para a ex-mulher, Kim ("Bad Husband", entre outras) e até para a mãe dele ("Headlights"), possivelmente a sua maior inimiga no auge da carreira. Isso, pra mim, é indicativo de um cara que cansou de ficar toda hora berrando absurdos pra chamar atenção.
Mas então, por que tantos fãs do Eminem escutam o som dele até hoje, o tem como um ídolo, e mesmo assim se recusam a amadurecer como ele? E é aí que entra meu segundo ponto: a palavra "Stan".
Um "Stan", em termos de cultura pop, é um fã que vai além até mesmo do hardcore. É fã de carteirinha de alguém. E quem inventou esse termo foi o próprio Eminem, na música que carrega o termo como nome e que tinha outro significado, mas os fãs tomaram o nome de assalto e agora é morte do autor na veia.
O que a galera parece ter esquecido é qual a mensagem da música Stan. Stanley, o protagonista do "enredo" da canção, é um fã do Eminem que escreve cartas pra ele e vai ficando mais e mais insano conforme nenhuma delas é respondida. Enquanto Em vive a vida corrida de um cantor mundialmente famoso, e por isso tem pouco tempo pra ficar lendo e respondendo carta de fã, Stanley dedica todo o seu tempo ao seu ídolo, chegando até a alienar pessoas que o amam de sua vida, como sua namorada.
No decorrer das cartas, Stan conta sua história de vida e diz coisas assustadoras - como por exemplo levar as letras das músicas do rapper extremamente a sério e se machucar fisicamente, ou dizer que ama o ídolo mais do que ama sua própria parceira. Durante cada carta, Stan se mostra mais e mais passivo-agressivo sobre não estar recebendo respostas na correspondência, até o momento da última "carta" - na verdade, um recado de voz gravado no carro - onde Stan diz que está bêbado e dirigindo acima do limite com sua namorada grávida amarrada no porta-malas. Fora de si, o rapaz esbraveja contra Eminem por razões completamente parassociais e sequer consegue terminar de gravar a mensagem, já que ele acaba batendo o carro e caindo num lago. Ele, a namorada e o bebê todos acabam mortos.
E aí eu te pergunto: qual é a moral da história? Óbvio, né. Não seja o Stan! Ser um Stan é ruim! Mas de alguma forma, a fanbase do Eminem decidiu que seria muito daora se todo mundo passasse a se denominar um Stan. "Haha nooooooosssaaa o tal do Stan lá é maluco né ele é maluco engual nois!!"
Um exemplo claro do quanto a mensagem de Stan não foi absorvida ocorreu na época do Lollapalooza 2016, quando Eminem veio ao Brasil. Alguns dias antes, alguns fãs - incluindo o adm de uma das maiores páginas brasileiras de fãs do rapper na época - descobriram em qual hotel ele se hospedaria e planejaram uma emboscada (!!) para conseguir fotos e autógrafos com ele. O autor de The Way I Am, tá? O cara que só falta desenhar "NÃO ME PERTURBEM NA MINHA VIDA PRIVADA". Nada disso importou para esses "fãs".
Bem, a equipe de segurança do Marshall ficou sabendo desse role e acabou com a graça deles antes deles conseguirem colocar o plano em prática. E o que que o tal do adm, esse palhaço, declarou publicamente depois disso tudo? Bem, ele disse que se sentiu muito decepcionado com isso, porque ele "esperou anos por isso [Eminem no Brasil]" e seu desprezo à privacidade do artista é apenas "amor".
Pô, sai do fake Stan!
E já que o assunto é amor doentio que vira ódio, chegamos ao terceiro e último problema com fãs do Eminem. Bom, não é todo mundo que presta atenção nesse tipo de coisa, mas Marshall é bastante ativo politicamente e se declara abertamente como um Democrata. E sim, eu sei, "ah mas ele disse isso sobre gays em 2001 e aquilo sobre mulheres em 2004 e não sei o que¨-- eu sei. Não tenho nem o que discutir nesse sentido. Mas ele é um apoiador do Partido Democrata, ainda que seja também um hipócrita.
Meu ponto com esse tópico é: Eminem cresceu no rap, em grande parte, usando da controvérsia e do chocante, do ofensivo, do "edgy". E toda essa raiva, toda a misoginia, toda a homofobia, bem, ela acaba ecoando melhor na mente de um outro tipo de audiência com a qual, talvez, nosso amigo não queira ter muito contato nos dias de hoje. Só que essa parcela da população também apoiava e apoia outro homem branco além dele - o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em 2017, durante um freestyle no BET Awards, Eminem deixou um recado bem claro para seus fãs: se algum deles fosse também fã de Trump, e estivesse dividido sobre qual lado apoiar, a resposta é "vá com o Trump e também pra casa do caralho". Naturalmente, a ala trumpista da comunidade de fãs do rapper fez um escândalo que afetou - bem pouco, inclusive, mas - as vendas do seu novo álbum na época, "Revival".
O que me pega é o seguinte: de novo, em que idioma essa galera escuta as músicas? Porque o Eminem não começou a falar de política ontem. Uma das suas músicas mais polêmicas, "Mosh" (2004), resultou em diversas visitas do Serviço Secreto à casa do rapper simplesmente porque ele passa a faixa inteira dichavando o então presidente George W. Bush. Não deveria ser tão surpreendente assim que ele seria anti-Trump, mas ainda que fosse, o chilique dessa galera é coisa de outro mundo. Literalmente num espaço de 24 horas todos aqueles esquisitos que vivem de spammar postagens sobre Eminem no Instagram dizendo "MY GOAT!!!" se tornaram os maiores haters do rapper, chegando num sólido 9.8/10 na Escala Stanley de Fã Homicida.
O que eu quero dizer com tudo isso é por favor, pelo amor de deus, vamos dar uma segurada nessa cultura de stanning. Eu foquei no Eminem nesse texto, mas a mesma crítica cabe pra fãs de muitos outros artistas. E na moral? Parem de ficar perdendo saliva defendendo o indefensável. Você gosta da música do cara. Vai lá e ouve e fica feliz. Ninguém vai te cancelar, nem existe isso de cancelamento.
Eu tenho duas tatuagens do Eminem - o "E" icônico num antebraço, e "Guts Over Fear" no outro - e de minha parte elas continuam exatamente onde estão porque o Marshall teve um papel literalmente de protagonista na minha vida, um que jamais será esquecido mesmo que eu comece a esquecer das músicas dele. Mas ao mesmo tempo, eu não sou hoje 10% do fã que eu era na adolescência e eu juro que isso é tão ok!! Eu conheço mais músicas do que nunca, conheci outras pessoas inspiradoras e novas formas de arte, e é uma sensação muito boa não estar preso na Bolha Do Eminem pra sempre. Até porque, sejamos realistas - um dia ele vai parar de cantar, e pior, um dia ele vai morrer igual todos nós. E eu não posso amarrar meu burro no de outra pessoa pro resto da vida assim, ainda mais um caba que tem uns 20 anos a mais do que eu.
E é isso; tem N jeitos perfeitamente saudáveis de amar e gerenciar seus sentimentos parassociais por alguém. E se alguém odeia o Eminem, porra, deixa a pessoa em paz! Ninguém é obrigado a gostar dele, e francamente, muita gente tem razão de não gostar. Enquanto ninguém estiver te punindo ativamente por gostar de algo, não faça o mesmo e vá ser feliz*.
Se você reconhece os erros de um ídolo, você o humaniza, e no fim das contas eu acho que é isso que todo artista quer. Ser visto como ser humano. E não sou só eu dizendo, ele mesmo disse isso:
"I'm not lookin' for extra attention
I just wanna be just like you
Blend in with the rest of the room
Maybe just point me to the closest restroom"
- - -
*disclaimer: tem limite pra tudo nessa vida, claro. Apologia ao nazismo, por exemplo, não é mais questão de "deixa os cara gostar". Só pra deixar bem claro aqui