Análise política da saga Zamasu em Dragon Ball Super

Análise política da saga Zamasu em Dragon Ball Super

Sim, isso aqui é um texto real, você não está tendo um derrame

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Assistir Dragon Ball, normalmente, não vai despertar em você nenhuma inspiração profunda para a análise da ciência política. Os vilões, em grande parte, possuem motivações simples para serem quem são e fazerem o que fazem, preferindo manter-se narrativamente interessantes por conta de seus vastos poderes de luta ou daquele fator "cool" que fica marcado no design, nas animações ou o que seja.

A saga Zamasu, em Dragon Ball Super, tentou (com alguns tropeços notáveis) contar uma história mais profunda. A trajetória de uma divindade corrompida que encontrou no genocídio a resposta às suas várias perguntas sobre como lidar com as imperfeições da raça humana. Além disso, o anime se preocupa em não deixar Zamasu se tornar um vilão unidimensional, e dedica diversos episódios para uma viagem na psique do vilão - nos permitindo um rápido olhar no caminho da sua espiral.

Dito isso, como estamos falando de Dragon Ball, muitos desses esforços narrativos passaram batidos por mim no início do arco - bem antes das revelações ao redor de Zamasu e Goku Black. O que me fez perceber as sutilezas na escrita dessa saga foi a dublagem estadunidense do anime, que soube elucidar melhor as condições que levaram Zamasu ao extremo.

Os episódios iniciais do arco focam muito no dia-a-dia, na rotina e na relação entre Zamasu e Gowasu. Gowasu é o Supremo Kaioh do Universo 10, uma divindade encarregada da criação e supervisão da vida; Zamasu é seu aprendiz, seu assistente e um prodígio na arte da luta.

As primeiras rusgas entre Gowasu e Zamasu nascem a partir da visão que cada um deles tem sobre conceitos como "bem", "mal", e "justiça". Zamasu, do alto de seu lugar na hierarquia divina, consegue ter uma visão macro das diversas raças mortais e ver toda a dor, injustiças e crimes cometidos diariamente por indivíduos inseridos nestas sociedades. Ele é confrontado com a dura realidade de que não existe o conceito de "paz absoluta", e que o caos vive dentro da ordem da mesma forma que a ordem vive no caos.

A busca pelo equilíbrio perfeito - ou pela prova de que tal conceito é absurdo - aborda contradições que já foram estudadas pelos maiores filósofos, historiadores e acadêmicos da história, com muito pouco ou nenhum resultado concreto em termos de respostas. Mesmo assim, Zamasu se torna obcecado em resolver essas contradições, e suas dificuldades em fazê-lo se tornam uma fonte de angústia - para Zamasu, humanos e mortais roubam, matam, mentem... e por isso, são um problema a ser "resolvido", extirpado do universo, para que apenas os "bons" permaneçam.

Acho que, em tempos como os de hoje, eu não preciso explicar muito por que esse tipo de raciocínio é perigoso. A nossa própria história nos mostrou, mais de uma vez, que muitos dos seres mais deploráveis que já existiram não atuavam num vácuo, mas sim justamente baseados em lógicas míopes e absolutistas de "bem versus mal"; e assim, justificavam suas campanhas sanguinárias, desde ditadores violentos que sonhavam com "a sociedade perfeita de seres geneticamente superiores" até atiradores que escrevem, antes de fuzilar uma escola inteira, manifestos enormes sobre como não há salvação para a humanidade e por isso todos devem morrer.

Vamos considerar, por um momento, a história de Anakin Skywalker nos episódios I, II e III da franquia Star Wars. O garoto prodígio, cujo potencial era supostamente a peça-chave para garantir a paz e o equilíbrio em todas as galáxias, é exposto a uma vida inteira de dor, tragédia e tortura e se vê cedendo à tentação do fascismo galático e seu culto à morte e destruição.

Quem acredita que, nestes três filmes, Anakin é algum tipo de herói trágico ou salvador incompreendido está simplesmente errado. Dito isso, porém, é inegável que sua espiral negativa não foi mérito apenas dele - há diversos culpados em diversos pontos da história, e os filmes fazem questão de nos mostrar exatamente qual o papel de cada pessoa ou instituição na queda da República.

Por um lado, você tem Palpatine, o demônio carismático que se aproveita das inseguranças e cicatrizes de Anakin para transformá-lo em seu braço direito na ascensão do Império; por outro lado, porém, existe a Ordem Jedi - uma instituição lenta, ineficaz e muito perdida dentro de suas próprias burocracias e tradições de tal maneira que, mais de uma vez, não consegue refutar categoricamente as inseguranças e desconfianças do jovem Anakin. A Ordem não consegue mostrar a Anakin, e a qualquer outro que estivesse na mesma posição, a lógica que prova que estão errados. Pelo contrário, muitos dos Jedi parecem contentes em apenas demandar que confiem neles ou sofram as consequências da desobediência.

E enfim, depois dessa volta toda, retornamos a Zamasu e Gowasu.

Em diversos momentos na saga, Gowasu não é capaz de entender e endereçar corretamente as questões de Zamasu. O jovem aprendiz pergunta, em um dado momento, para que servem os seus poderes divinos e a sua estação na hierarquia universal se tudo que um Supremo Kaioh faz é observar, tomando um chá e meditando, enquanto coisas ruins acontecem debaixo dos seus narizes. A resposta catastrófica de Gowasu é levar seu assistente para o passado, observando os habitantes de um planeta primordial chamado Babari.

No planeta Babari, Gowasu e Zamasu observam suas tribos primitivas brigando entre si, se matando e escravizando uns aos outros. Zamasu está prestes a levantar sua indignação quando Gowasu, usando seus poderes, leva os dois para um outro ponto no tempo - mil anos depois daquele ponto em que estavam. O mestre nota que a sociedade Babari evoluiu, ainda que pouco, no sentido do que chamaríamos de "civilização"; algumas tribos são vistas trabalhando, interrompendo lutas, construindo lares e afins. Todavia, a tendência ainda é matar, roubar e escravizar, e Zamasu faz questão de dizer que não entendeu o que seu mestre queria mostrar com isso.

Para piorar, o plano de Gowasu se torna um desastre quando um Babari nota a presença deles e, sem pensar duas vezes - ou até pensar, ponto - os ataca. Zamasu, instintivamente, entra na frente de Gowasu e parte o inimigo em dois. O aprendiz, pela primeira vez, tirou a vida de alguém - e o anime faz questão de mostrar Zamasu em "transe" por alguns segundos, como se alguma camada do seu ser tivesse sido desbloqueada. Com isso, o plano de Gowasu não só falhou na missão de mudar a cabeça do seu aprendiz, como ainda o empurrou mais ainda para o olho do furacão.

Em uma de suas discussões sobre bem, mal e justiça, Zamasu argumenta que o mal é um obstáculo, e a justiça é a espada com a qual o bem remove tal obstáculo. Gowasu responde com uma frase que irrita seu aprendiz: "A justiça não é uma espada que derrota o mal, mas sim uma balança que mantém ambos em harmonia". Para corroborar seu argumento, o mestre afirma que é pela justiça que se é possível "entender" o mal, pemitindo com que o indivíduo aprenda com os erros seus e dos demais. A justiça na qual Gowasu diz acreditar é forjada em cima da compreensão, e não da mera afirmação do poder. Ele diz que "o mal informa o bem", dando a entender que não há entendimento pleno do conceito de justiça sem que haja o entendimento do que é o mal - e não só entender por que o mal existe, mas por que se permite que ele exista.

De certa forma, as palavras do mestre são verdadeiras. Sociedades são complicadas, e demandam que a justiça seja restaurativa ao invés de punitiva. De acordo com Carolyn Boyes Watson:

"Ao invés de conceder privilégios à lei, aos profissionais e ao estado, resoluções restaurativas engajam com aqueles que sofreram danos, com aqueles que praticaram o ato, e com as comunidades afetadas de forma a buscar soluções que promovam o reparo, a reconciliação e a reconstrução das relações. A justiça restaurativa busca construir parcerias que visam reestabelecer responsabilidade mútua para respostas construtivas às infrações cometidas dentro das nossas comunidades. As abordagens restaurativas buscam um caminho que equilibre as necessidades das vítimas, infratores e comunidade por meio de processos que preservem a segurança e a dignidade de todos."
- Boyes-Watson, C. (2014). Suffolk University, College of Arts & Sciences, Center for Restorative Justice

Apesar disso, as ações de Gowasu - ou a falta delas - vão na contramão de suas belas palavras. Quando Beerus, Whis e Goku visitam o planeta onde mora, Gowasu tem a "brilhante" ideia de promover um duelo amigável entre Zamasu e o protagonista do anime - acreditando que Zamasu perceberia, interagindo com Goku, o potencial infinito dos mortais e o que eles têm de bom a oferecer. O resultado, porém, é o completo oposto: Zamasu perde o duelo e se sente humilhado, acreditando ser uma forma de "sacrilégio" que um mero mortal consiga ultrapassar os poderes de uma divindade como ele, e acaba se tornando obcecado com a ideia de que mortais "perigosos" precisam ser eliminados antes que possam se tornar fortes como Goku.

A derrota de Zamasu, além de piorar sua situação mental, ainda fez com que o jovem aprendiz criasse uma espécie de fixação com o poder de Goku, essencialmente culminando no que viria a ser Goku Black - um Zamasu de outra linha temporal que, buscando satisfazer sua sede de justiça, pediu às Esferas do Dragão para trocar de corpo com o Goku de seu tempo e o matou em seguida. Não é surpresa, logo, que o encontro entre Zamasu e Black tenha ocorrido da forma que foi no anime.

Na linha do tempo de Trunks, Zamasu nota que Gowasu foi brutalmente assassinado por um homem com a aparência de Goku. O aprendiz se prepara para o combate, mas nota algo estranho e pergunta quem é o visitante estranho. Black responde apenas: "Eu sou a versão 'sua' que você sempre quis ser", e tudo faz sentido para ele - afinal, esses são seus pensamentos. Os dois, então, dão início ao Plano Zero Mortais -- um projeto multiversal e multitemporal de genocídio completo. Goku Black utiliza o poder do corpo Saiyajin de Goku, e Zamasu junta as Esferas novamente para pedir que se torne imortal. Assim, ambos viajam o espaço-tempo matando mortais, deuses e todos que se colocassem no caminho da sua cruzada santa.

O fato é: Gowasu é um deus. Logo, ele está em uma posição de poder, por mais que goste de fingir que não. Mais importante ainda, se cabe ao Supremo Kaioh de um universo a supervisão deste, então é responsabilidade da divindade em questão contribuir para a manutenção da ordem social. Zamasu tem razão em buscar a subjugação de todos os mortais e resolver as contradições da vida em sociedade com assassinatos? Claro que não. Mas é fato que Gowasu não faz nada com os poderes que tem, se contentando em apenas observar e crer que tudo vai se equilibrar com o tempo.

Assim como no exemplo da Ordem Jedi, Gowasu representa o fracasso das instituições centristas e liberais - instituições que falham com aqueles que juram proteger, e falham em impedir aqueles que buscam sua destruição. Ao dizer para Zamasu apenas "seja paciente", Gowasu não faz nada além de se colocar como parte do problema. Até mesmo dentro do universo de Dragon Ball fica evidente a sua falha moral: considere Shin, o Supremo Kaioh do Universo 7 (o "nosso"), por exemplo. Em Dragon Ball Z, Shin passa a ser parte da história justamente porque, ao descobrir que havia um plano para ressuscitar Majin Buu, sua resposta não foi apenas sentar e esperar que as estrelas se alinhassem -- pelo contrário, ele colocou sua própria vida em risco inúmeras vezes para tentar impedir o ritual.

Na Saga Zamasu, o verdadeiro ideal da justiça está com Trunks. Em um certo momento, o Saiyajin, conhecido por ter acesso a uma máquina do tempo, descobre que os deuses consideram um crime grave que mortais viajem no tempo, uma vez que interfere com a continuidade multiversal e por isso é uma prática reservada a divindades. Goku Black e Zamasu, ambos deuses, tentam atingir Trunks psicologicamente ao utilizar essa informação: eles argumentam que Trunks é um dos principais criminosos da humanidade, um exemplo primo dos pecados dos mortais, e o motivo pelo qual o genocídio da dupla é justificável.

Trunks, porém, contraria as expectativas dos seus algozes. Ao invés de tentar se justificar, dentro dos padrões de "justiça" impostos por Black e Zamasu, e defender suas ações, Trunks simplesmente rejeita a premissa. Ao invés de tentar pedir perdão por viajar no tempo, ele aceita o fato de que ele o fez para proteger seu mundo - todas as vezes - e que se a "justiça" considera que proteger aqueles que amamos é errado... então é a própria "justiça" que está errada.

"Se vocês dizem que minhas escolhas me tornam um vilão... então é exatamente isso que eu serei!"
- Trunks, "Dragon Ball Super"

Ao ativamente rejeitar a justiça de Black e Zamasu, Trunks mostra que enxerga além do dogma, da regra; ele sabe que luta por sobrevivência e por um futuro melhor, e sabe que seus inimigos, por mais que preguem palavras de ordem e lei, estão cometendo genocídio com base em nada além de paranoias, preconceitos e uma fixação doentia em punir e subjugar a todos.

Karl Marx ensina que "é fato, no entanto, que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas; o poder material tem de ser derrubado pelo poder material". Isto não é uma rejeição ao diálogo e à crítica construtiva, muito menos aos preceitos da justiça restaurativa; mas sim, uma defesa da ideia de que uma ameaça material e concreta - como o genocídio de todos os mortais - deve ser rebatida com uma força material e concreta que consiga derrotá-la. E é isso que Goku, Vegeta e Trunks fazem: depois de um longo e intenso combate, o jovem viajante do tempo corta a figura polimerizada de Zamasu e Black no meio e salva o futuro.

... Ou pelo menos é o que deveria ter acontecido, mas aí temos uns 2 episódios meio anticlimáticos depois. Fazer o que, né. Ainda não tem teoria suficiente no campo da esquerda que lide com finais ruins.

Para todos os efeitos, porém, Dragon Ball Super mostrou exatamente o que era necessário para parar Zamasu: não só nos capítulos finais, com a força defensiva dos protagonistas, mas no decorrer da trama, com as várias chances que Gowasu teve para intervir de forma significativa, efetiva, impedindo que Zamasu se perdesse nos seus transtornos. Ele poderia não demandar tanta fé passiva no "processo", que é o que torna tão simples que jovens deprimidos, traumatizados e com sede de vingança sejam recrutados por grupos de ódio; eles querem ação, eles querem mudar o mundo, e tudo que os mais velhos sabem dizer é "deixa disso" e "confia".

Na verdade, trata-se também de uma falha do pacifismo.

A paródia Dragon Ball Z Abridged introduziu, em sua recontagem dos eventos da saga Cell, uma crítica nobre ao pacifismo -- especialmente porque os episódios finais da trama saíram durante o primeiro governo do fascista Donald Trump nos Estados Unidos. Primeiro, o próprio Cell zomba de Gohan por se denominar um "pacifista" e não ter vontade de enfrentá-lo enquanto seus aliados são torturados. Em seguida, o Androide #16 - que no anime original tenta apelar mais para a o coração e a gentileza de Gohan para convencê-lo a lutar - é reescrito de forma a triturar a hipocrisia e arrogância do jovem Saiyajin, expondo também as múltiplas falácias em torno de não querer enfrentar a injustiça por questão de princípios.

A complacência liberal é peça-chave por trás de muitas tragédias extremistas. Cabe a nós, enquanto coletivo, entender a importância de agir. De não se esconder por trás de ideais surreais e de moralismo barato. De não buscar desculpas para ficar de braços cruzados. E principalmente, de endereçar males sociais e sistêmicos antes de se tornarem problemas maiores. Só assim teremos menos Zamasus e Anakins por aí.

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