Herança maldita

Foto de Hennie Stander via Unsplash

Herança maldita

Quem bate esquece, quem apanha lembra... e carrega o peso pra sempre

- - -

Era comum na minha adolescência, deixou de ser comum depois de um tempo, e voltou a ser comum nos dias atuais; o discurso de que "o bullying forma caráter" continua prevalente e conquista adeptos semana após semana.

Não importa a idade, o contexto social e nem menos — por incrível que pareça — a ideologia política. A suposta supremacia da lei do mais forte conquista a mente de vítimas e agressores, convencendo-se que a prática, o sofrimento, ou uma intersecção dos dois nos seus anos formativos foi o que os transformou em adultos funcionais e capazes de aguentar uma suposta "Dura Realidade Do Mundão Lá Fora".

Claro, sempre existiu um debate sobre o que é realmente aquele conceito de bullying que deu origem às campanhas escolares de conscientização. É bullying se você apenas inferniza uma pessoa que já estava infernizando todo mundo? Quão grave a conduta e os atos precisam ser para serem caracterizados como bullying? Existe bullying depois da vida escolar?

Foto de Billy Williams via Unsplash

Todas perguntas para as quais existem respostas, mas que desviam o foco da questão principal. Traumas nos anos formativos estão por trás de um sem-número de tragédias na nossa sociedade, e eu não me refiro apenas àquelas que chegam aos jornais e chocam o mundo.

Pra mim, até mesmo uma pessoa que sucumbe à mentalidade "mares calmos não formam marinheiros competentes" e veste seu trauma como uma medalha, como uma licença para perpetuar o ciclo... até isso, pra mim, é uma tragédia.

- - -

Deixando de lado o tom jornalístico, frio e distante dos primeiros parágrafos, compartilharei minha experiência como sobrevivente de bullying. E, por mais que eu não acredite na distinção entre "Bullying de Verdade" e "Bullying de Mentira", o leitor mais cínico provavelmente vai adorar saber que fui vítima do tipo de bullying onde você chega em casa com marcas de violência no corpo, sangue nos lábios e afins. 

O tipo que muitos descreveriam como sendo "de verdade".

Começa sempre de forma inofensiva. Você usa boné para ir à escola, e alguém vê que você é mais quietinho e decide mexer com você para mostrar domínio. Pegam seu boné e jogam uns para os outros querendo que você vá atrás.

Os adultos ao seu redor dizem que o certo é não dar corda. Então tudo bem. Você, no auge dos seus 11, 12 anos, decide que é melhor ouvir os mais velhos e passa a ignorar o assédio. Perde uns três bonés nesse processo, e até para de usar, pra não provocar ninguém. Sua personalidade já começa a ser podada ali.

Mas quem acha que ignorar é o suficiente precisa parar de assistir filmes da Disney. Porque é aí que os agressores com mais baixa autoestima, ou que precisam provar algo para seus "superiores" na turma, decidem que a treta é pessoal. Pensam que você, ao se fazer de paz-e-amor, está se achando melhor do que eles.

Começa sempre de forma inofensiva. Um boato sobre você que não tem base alguma, mas que é suficiente pra fazer com que você precise se defender. 

No meu caso, alguém inventou que eu não tomava banho. Era mentira, óbvio, mas adiantava? Eu não tinha amigos. Não é como se alguém fosse me defender ou pensar "peraí, nada a ver, ele tá sempre com a aparência boa". Alguns vão entrar na "brincadeira", a despeito dos sentimentos da vítima, e outros vão apenas observar e dar graças a deus que não foi com eles.

Você não tem nem 15 anos ainda. Os adultos ao seu redor continuam dizendo para ignorar tudo isso, mas até que ponto vai a sua paciência? Então você resolve tentar se defender, afinal ignorar o o boato não fez ele ir embora mesmo depois de um semestre inteiro.

E aí vem o primeiro tapa. O primeiro chute. O primeiro soco.

Foram 4 anos disso.

Você passa a questionar as autoridades ao seu redor, que deveriam te proteger, mas vêem que você está com hematomas no corpo e não fazem nada além de puxar uma orelha ou duas. Até mesmo a confiança nos seus pais acaba, e a sua desculpa passa a ser "me machuquei jogando bola", "caí da escada", "tropecei na rua".

De certa forma, essas desculpas te tornam cúmplice. Você não está dando as informações necessárias para que alguém faça algo. Mas deveria ser esse o seu papel? Numa idade onde você sequer tem controle sobre seus hormônios?

Muitas pessoas aos 15 anos já pensavam no que iam fazer na faculdade. Eu estava planejando minha primeira tentativa de suicídio.

- - -

É um pouco difícil aceitar que todas as experiências e decepções que eu vivi foram "formadoras de caráter", experiências que me deram algum tipo de maturidade suprema. Eu, de fato, vivo bem hoje — já bem depois dos 30 anos, e com mais de uma década de terapia — mas o crédito disso tudo não é nem 20% meu. Tenho privilégios sociais que me permitiram acesso a ajuda clínica, pude contar com minha rede de apoio enquanto tropecei pela vida acadêmica e profissional até achar algo, e até hoje ainda sinto os efeitos dos traumas em mim.

Aliás, é seguro dizer que eu nunca vou estar 100% curado das marcas que foram deixadas em mim.

Até hoje, parte de mim sente raiva. Por que eu? E por que "eles" estão impunes até hoje? Por que eles vivem vidas normais e felizes hoje em dia, enquanto eu sou obrigado a carregar o peso de tudo nas minhas costas? São perguntas que diminuem conforme o tratamento e o tempo passam, mas que sempre vão estar ali, rondando meu subconsciente.

Foto de Denise Chan via Unsplash

Parte do motivo pelo qual fui me desvinculando, no fim da adolescência, da criação liberal-centristra que tive e adotei posições políticas de esquerda se deram justamente porque gostaria de viver em um mundo onde os mais fracos não são presas do status quo, seja ele o status quo do mundo capitalista, ou os "sub status quo" que existem na escola, no trabalho, e em todo lugar tomado pelo pensamento individualista.

Mas isso também faz com que eu tenha uma noção deturpada do que é "injusto", do que merece "punição". Às vezes, sou capaz de ficar obcecado com algum incidente de completa desimportância simplesmente porque meu cérebro associou os fatores em jogo aos termos "Situação injusta" + "Vítima inocente" + "Agressor não foi punido". 

Coisas bobas que são capazes de acabar com meu dia e fazer com que eu aliene pessoas do meu convívio. E elas não são obrigadas a entender a bagagem por trás de um surto — eu só queria não sentir eles.

Eu queria viver de uma forma mais normal.

Mas eu não posso, eu nunca serei capaz de ter uma vida 100% normal, e o pior de tudo é que a culpa não é minha. E nem de ninguém por aqui.

Os culpados têm nome, sobrenome, e rostos que eu lembro muito bem, mas eles seguiram em frente, a sociedade seguiu em frente, e eu sobrei — resignado a tentar descobrir como *eu* faço para seguir em frente, sendo o único que perdeu algo nisso tudo.

- - -

O texto deu voltas e mais voltas, mas o ponto ficou claro.

Bullying não constrói caráter.

Foto de JJ Ying via Unsplash

E como eu disse antes, uma das tragédias mais comuns que se relacionam a isso nascem das vítimas que, tendo suas visões de mundo deturpadas pelo sofrimento, batem no peito pra dizer que "o mundo é assim" e perpetuam o ciclo de violência ao invés de pará-lo.

Ou aqueles que, tendo sido vítimas ou não, leem relatos até piores do que o meu e se escondem debaixo de vinte camadas de ironia para dizer que estão todos de frescura. Que sentir o trauma, e reconhecer os efeitos dele na sua vida, é alguma demonstração de fraqueza.

Provavelmente têm algo a provar para seus "superiores" na cadeia alimentar, ou algo do tipo.

E é aí que vive o perigo de atribuir formação pessoal a esse tipo de violência.  

Na melhor das hipóteses, o bullying te torna um "peso-morto" efetivo, extremamente vulnerável a tudo; na pior delas, um justiceiro emocionalmente desequilibrado com sede de vingança. 

Ou algum ponto no vasto espectro que mora entre esses dois estereótipos.