Chris O'Meara (AP)
Sidão
O entretenimento que desumaniza
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Estamos no início dos anos 2000, em São Paulo, capital. Sidney, um jovem de 17, 18 anos, goleiro das categorias de base do Corinthians, recebe a notícia de que sua mãe, Vera Lucia, não está mais entre nós.
O jovem arqueiro não resiste ao chamado do abismo. Ele se lembra da voz de Vera Lucia: "Você só me dá dor de cabeça", ela dizia. Frequentador assíduo das noites paulistanas, Sidney era conhecido por gastar todo o seu dinheiro em bebidas e farra; ele saía para as noitadas na sexta-feira, e só voltava no domingo para os braços da preocupada mãe.
Ironicamente, foi após um surto de dores de cabeça que sua mãe faleceu. Seria precoce, ingênuo, incoerente da parte de qualquer um de nós dizer que foi Sidney o culpado pela morte de seu anjo protetor - mas foi o próprio goleiro que apontou para si. Sidney sentia que carregava a culpa pela partida da mãe. Dizia que vivia "uma vida errada", e que Vera Lucia teria morrido de desgosto; de estresse.
"Carreguei esse sentimento de culpa e, para mim, o certo era eu morrer também", disse o filho em uma entrevista.
Sidney agradece até hoje por não ter tido coragem - pois vontade não faltou - de tirar sua própria vida. Mas ele enfrentou uma profunda depressão, e durante boa parte desse período, elegeu a companhia apenas de destilados e cervejas.
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Estamos em 12 de maio de 2019 - um domingo de Dia das Mães.
Vasco e Santos se enfrentam pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro, e o Vasco perde de 3x0 - com atuação falha do goleiro Sidão, inclusive participando ativamente do primeiro gol do time adversário.
A Rede Globo de Televisão inicia, durante a transmissão, o prêmio "Craque do Jogo" - onde internautas votam, no percorrer da partida, para decidir qual dos atletas em campo foi o destaque. A ferramenta foi um fracasso absoluto, fato que já era óbvio muito antes desta ocasião específica; muitas vezes, os torcedores votavam em um atleta "folclórico", ou que tivesse um nome engraçado, enfim - o completo oposto do que queria a emissora.
Mesmo após o incidente entre um amistoso da Seleção Brasileira contra a República Tcheca - onde o "craque do jogo" escolhido pela massa foi o atleta Ondrej Kudela, pura e simplesmente pela sonoridade cacofônica do seu nome no português - a Globo insistiu mais uma vez na ferramenta para o Brasileirão.
Postagem (agora apagada) do portal Desimpedidos convocando seus milhares de seguidores a votar em Sidão
Naturalmente, a história se repetiu. Com 90% dos votos, Sidão foi escolhido "craque do jogo" pela audiência após sua péssima partida em um dia de péssimas memórias para ele.
A Rede Globo, não satisfeita em persistir no uso da sua inútil ferramenta interativa, ainda achou por bem pedir a uma repórter que entregasse ao goleiro o troféu de "craque" na beira do gramado. Mesmo com integrantes da equipe de reportagem se colocando contra a decisão, foi empurrada para a visivelmente constrangida Júlia Guimarães a ingrata tarefa de humilhar Sidão em rede nacional.
Sidão, mal conseguindo formar palavras perante tal golpe baixo da emissora, deu algumas pequenas palavras em resposta e deixou a entrevista. Nas costas de sua camiseta, onde normalmente estaria seu nome, aparecia o nome de Vera Lucia - sua falecida mãe - e os dizeres "Amor Infinito". Uma homenagem ao Dia das Mães, planejada por Vasco e Santos como parte do evento. E um lembrete do que o dia significava para Sidão.
Depois do jogo, em uma coletiva, o goleiro afirmou que o dia em questão foi "um dos piores dias de sua vida".
Reprodução/SporTV
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Estamos, agora, na internet. De onde nasceu a chacota com Sidão, de repente, afloram manifestações de solidariedade ao arqueiro e indignação com a atitude da Globo, que não deixou uma piada de internet permanecer na internet. Foi atrás, e personificou - deu forma física e tangível - ao problema, colocando-o no colo de um transtornado Sidão como se não fosse nada.
Ainda assim, a maioria das respostas a essas manifestações de apoio não foram positivas. Torcedores vascaínos, ensandecidos com o que provavelmente foi uma das piores perfomances coletivas do time no ano, persistiam em atacar o goleiro: "No lugar dele, ganhando o que eu ganho, eu aguentava!", "Coitado de MIM que tenho que aguentar ele no gol!", "Ele ganha milhões, tá triste com o que?!", "Tá com pena, leva pro teu time!". Respostas que demonstram, mais uma vez, a faceta suja e cruel do futebol. O mesmo esporte que, numa mão, inclui o oprimido, levanta o excluído, une povos e termina guerras, na outra, é o maior antro de racistas, homofóbicos e sexistas e assassinos de todo o âmbito esportivo.
Para cada passo que a sociedade moderna dá em direção a um mundo mais compreensivo, mais aceitável e mais respeitoso da saúde mental alheia, ela dá dois para trás em seguida. "Saúde mental só importa com quem eu gosto, e do conforto do meu sofá, eu penso que faria melhor". De nada importa o ser humano; importa o resultado em campo.
Aqueles que ganham dinheiro, mesmo que em uma profissão de carreira curta, não têm o direito de se levantarem contra seus demônios externos; mas com certeza, muitos choraram por Robin Williams, Chester Bennington e outros ricos e famosos que cometeram suicídio após sofrerem em silêncio. Me pergunto como teriam reagido se qualquer uma dessas pessoas fosse o goleiro do time deles em má fase, ao invés de um ator, cantor, ou performer.
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Flickr/Grêmio Osasco Audax
Sidão "reapareceu" para o mundo do esporte em 2016, como goleiro reserva - e depois titular - do sensacional Grêmio Osasco Audax, vice-campeão paulista naquele ano. Mas antes disso, o arqueiro viveu dias difíceis. Até 2005, era atleta profissional, mas não ganhava nem perto do suficiente para ter uma vida tranquila solteiro - que dirá quando pretendia se casar com a atual esposa.
Desiludido, Sidão rasgou seus sonhos e foi atrás de bicos variados para sobreviver; entre eles, o de segurança. Foi trabalhando nisso, inclusive, que o presidente do Taboão da Serra o encontrou, e aconselhou Sidão a insistir mais uma vez no sonho de jogar profissionalmente.
Em 2008, Sidão retornou ao futebol. Rodou mais um pouco pelos clubes do interior paulista e, em 2013, chegou ao Audax. Até 2016, foi reserva. Na oitava rodada do Paulistão daquele ano, o titular Felipe Alves se lesionou, e Sidão assumiu a meta para nunca mais largar até o vice-campeonato. Habilidoso com os pés, além de seguro na meta, o jogador se encaixou como uma - perdão da expressão - luva na formação inovadora do técnico Fernando Diniz, naquele que foi o primeiro grande sucesso nacional do "Dinizismo".
Após a vitória sobre o Corinthians, na semifinal, Sidão deu uma entrevista pós-jogo emocionante, recapitulando suas batalhas na vida e seu orgulho em chegar onde chegou. Ainda em 2016, foi emprestado ao Botafogo para o Campeonato Brasileiro, e teve ótima passagem. Chegou para ser o reserva do reserva, que seria titular temporariamente após a lesão e cirurgia do incontestável Jefferson. Mesmo assim, assumiu a meta e colecionou defesas difíceis, pênaltis salvos e quase fez um gol de bicicleta. Em 2017, assinou com o São Paulo, e aí começou o inferno profissional de Sidão.
Durante o ano de 2017, Sidão teve um ano de altos e baixos pelo Tricolor. Terminou com o reconhecimento de alguns, e o desgosto de outros na torcida. Em 2018, porém, Sidão colecionou atuações ruins e caiu diversas vezes na reserva do clube, inclusive sendo oferecido para diversos clubes durante o curso do ano. Em 2019, assinou pelo Goiás, teve bons jogos, mas mais uma vez caiu de rendimento e foi emprestado ao Vasco da Gama.
O que nos leva ao jogo do dia 12 de maio. E o quão pouco tudo o que foi citado acima importa. De nada importa ser trabalhador, ir treinar todo dia, colocar sua imagem em risco perante milhares de pessoas duas vezes por semana, ver e ouvir os piores lados da humanidade na derrota com seus próprios olhos e ouvidos. De nada importa apostar em um sonho para sobreviver, para sair da lama, para não morrer no acostamento da rua.
Não. Só o resultado importa.
A mídia transformou Britney Spears, durante seus surtos mentais, em chacota. Não foi a única, mas foi um caso notório que sempre vem à mente os abusos com pessoas públicas.
Com Sidão, não seria diferente. E não será com o próximo.
Temos muito o que evoluir como sociedade.
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"Em fevereiro, 'Globo Esporte' mostrou luta de Sidão a contra depressão no início da carreira" - http://folhanobre.com.br/2019/05/13/em-fevereiro-globo-esporte-mostrou-luta-de-sidao-a-contra-depressao-no-inicio-da-carreira-veja-reportagem/254227
"Globo humilha Sidão, goleiro que se envolveu com drogas e depressão" - https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/globo-humilha-sidao-goleiro-que-se-envolveu-com-drogas-e-depressao-13052019
"Sidão lembra da mãe, se emociona e diz que atuação pelo Vasco foi a pior da sua vida" - https://www.foxsports.com.br/news/407539-sidao-lembra-da-mae-se-emociona-e-diz-que-atuacao-pelo-vasco-foi-a-pior-da-sua-vida